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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Voyager, as viajantes interestelares

   
Lançadas em 1977, as sondas Voyager estão há 35 anos em funcionamento no espaço.
   
Por Eduardo Araia 
   
O Brasil vivia uma tímida abertura política, o primeiro filme da saga Guerra nas Estrelas lotava as salas de cinema e o mundo da música se recuperava da prematura morte de Elvis Presley quando teve início a mais duradoura aventura espacial da humanidade: em 20 de agosto e 5 de setembro de 1977, respectivamente, partiram do Cabo Canaveral, na Flórida, as sondas Voyager 2 e Voyager 1. Trinta e cinco anos depois, elas continuam na ativa. A Voyager 1 já é o objeto fabricado pelo homem mais distante da Terra. 
   
A missão Voyager deriva do projeto Mariner, um programa anterior da agência espacial norte-americana Nasa voltado para a investigação dos planetas situados entre o Sol e o cinturão de asteroides, realizado entre 1962 e 1973. Denominado inicialmente Grande Turnê pelos Planetas Exteriores, o projeto foi planejado para aproveitar um raro alinhamento de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, os gigantes gasosos do Sistema Solar, usando a poderosa força gravitacional desses astros para impulsionar as naves adiante, rumo ao espaço interestelar. Uma oportunidade que só ocorre a cada 177 anos. 
   
O plano original envolvia o lançamento de diversos pares de sondas – uma das quais, pelo menos, passaria por Plutão –, mas um severo corte de verbas promovido pelo Congresso dos EUA reduziu o número de naves a dois e levou a Nasa a trocar o nome do programa. 
  
Mesmo com as dificuldades financeiras, o Laboratório de Propulsão a Jato (JPL, na sigla em inglês), responsável pela construção das sondas, caprichou para produzir algo inigualável. As sondas Pioneer 10 e 11, lançadas respectivamen te em 1972 e 1973, estavam programadas para chegar ao espaço interestelar, mas não se esperava que mandassem informações de lá (ambas encerraram sua missão nos anos 1990). As Voyager, no entanto, deveriam ser robustas o bastante para resistir a essa jornada, superar falhas e continuar a enviar dados por anos a fio. Uma enorme diferença para uma equipe habituada a preparar naves para missões mais curtas. “Achamos que podíamos fazer isso”, relembra John Casani, engenheiro de sistemas da Voyager. “Ninguém mais fez!” 
   
O resultado foram duas naves gêmeas, cada uma com 722 quilos de peso. Uma estrutura com dez lados abriga diversas conexões entre dispositivos, acoplada a uma antena parabólica com 3,7 metros de diâmetro. Um dos lados carrega um disco com imagens e sons da Terra, concebido pelo astrônomo norte-americano Carl Sagan. Do chassi saem braços e antenas, entre os quais um magnetômetro de 13 metros de comprimento, o instrumento mais saliente das sondas. Abaixo dele, ficam os geradores termelétricos de radioisótopos, que mantêm os veículos em funcionamento. No topo de uma estrutura elevada do chassi há câmeras, detectores de partículas, espectrômetros, um radiómetro e outros aparelhos. 
   
A Voyager 2 partiu primeiro para manter a programação de visitar os quatro gigantes gasosos, dois dos quais – Urano e Netuno – pela primeira vez na história humana. Dois anos depois, em julho de 1979 ela chegou a Júpiter; a Saturno em agosto de 1981; a Urano no início de 1986; e a Netuno em agosto de 1989. 
    
A Voyager 1 seguiu uma rota mais curta, que a levou a chegar meses antes de sua irmã a Júpiter e Saturno (com direito a uma espiada mais detalhada na lua Titã, que possui uma espessa e intrigante atmosfera), mas ao custo de não passar perto dos outros planetas. 
   
Em compensação, é, atualmente, o artefato humano mais longe da Terra, superando a Pioneer 10: em outubro de 2012, a Voyager 1 estava a quase 123 unidades astronômicas (cada UA vale cerca de 150 milhões de quilômetros, a distância média entre a Terra e o Sol) do nosso planeta, seguindo, perseverantemente, rumo à constelação da Girafa. Nesse mesmo mês, a Voyager 2 voava a pouco mais de 100 UA da Terra na direção de Sirius, a estrela mais brilhante do nosso céu. As Voyager se afastam da Terra à velocidade estonteante de 16 km/s. 
   
O material coletado pelas naves (só dos planetas exteriores a Voyager 2 enviou mais de 67 mil fotos) é excepcional, redimensionando nosso conhecimento sobre o Sistema Solar. “Os resultados da missão Voyager converteram Júpiter e Saturno em mundos plenos e tumultuados e suas luas foram promovidas de pontos débeis a lugares singulares. Elas também nos deram os primeiros vislumbres a curta distância de Urano e Netuno”, avalia o cientista-chefe da missão, Ed Stone. Dos aparelhos embarcados, as câmeras já deixaram de funcionar, mas cinco continuam ativos em cada nave e seguem enviando informações científicas sobre recantos do espaço pouco conhecidos. 
   
No fim de 2004, a Voyager 1 entrou no Cinturão de Kuiper, região entre 30 UA e 50 UA da Terra, onde pequenos astros do porte de Plutão orbitam o Sol. A Voyager 2 não demorou muito para chegar lá. Agora, a Voyager 1 se aproxima da fronteira entre o Sistema Solar e o espaço interestelar, marcada por um campo magnético de grande intensidade e elétrons de alta energia provenientes da galáxia. 
   
O contato entre as naves e a missão é feito diariamente, mas as mensagens demoram a chegar. “O tempo da transmissão por rádio é agora de 15 horas em cada sentido”, conta Suzanne Dodd, gerente do projeto. “Enviamos um comando na manhã de sábado e ele retornou no domingo à tarde.” A distância é enorme, mas vale lembrar que se trata de máquinas fabricadas nos anos 1970. “Às vezes elas precisam de um ajuste na audição”, brinca Suzanne. 
   
Embora já tenham entrado na “terceira idade”, as Voyager seguem produtivas e ainda têm trabalho pela frente. A previsão é que só parem de funcionar por volta de 2025. “Mesmo após 35 anos, nossas castigadas Voyager estão prontas para fazer novas descobertas, enquanto aguardamos avidamente pelos sinais de que entramos, pela primeira vez, em espaço interestelar, depois do sistema solar”, afirma Stone. 
   
Quando deixarem de funcionar, as naves ainda terão utilidade como portadoras de uma mensagem lançada no oceano cósmico por uma raça que, pelo menos neste esforço científico, parece harmonizada em sua diversidade. Isto é, se forem achadas por algo capaz de entendê-las.
    

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