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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Entenda porque as pesquisas estão "errando" tanto

Veiga pede penas pesadas contra fraudes
               

           
Pesquisas eleitorais feitas por Edir Veiga, do Instituto IVeiga, foram certeiras, e cientista revela que recusou dinheiro sobre resultado.
           
As eleições deste ano, colocaram, mais uma vez, no centro do debate, a credibilidade dos Institutos de Pesquisa. A maioria absoluta deles apontou resultados completamente diferente do revelado após a abertura das urnas. A exceção ficou por conta do Iveiga, instituto criado pelo cientista político Edir Veiga. Desde o início, Veiga apontava a liderança do candidato da oposição, Helder Barbalho, enquanto todos os outros davam ao candidato à reeleição ampla margem de vantagem, indo na contramão dos resultados eleitorais. Na entrevista a seguir, Edir comenta esses resultados díspares, explica como são feitas as pesquisas eleitorais e revela: sofreu pressão para mudar resultados. 
           
P: As pessoas sempre se perguntam, como é possível, ouvindo cerca de mil pessoas, saber como estão as intenções de voto em um Estado com o número de eleitores do Pará. Qual a mágica? 
        
R: Não é mágica, é metodologia científica. É a mesma metodologia que permite que você, tirando uma gota de sangue, possa ter uma visão geral de todo os 5 litros de sangue do corpo humano. Ou seja, você não precisa examinar os cinco litros de sangue para descobrir se uma pessoa está com uma virose, um ataque bacteriano, etc.
           
Assim para conhecermos as tendências eleitorais de uma cidade, de um estado ou de um país, não precisamos ouvir todos os cidadãos. Basta termos uma amostragem estatisticamente representativa e que seja o “clone” em miniatura de toda a sociedade.
           
De acordo com os preceitos legais, uma amostra representativa deve reproduzir uma série de segmentações sociais como por exemplo: Caso optemos por uma pesquisa com margem de erro de 3% para mais ou para menos, devemos entrevistar 1.200 pessoas e a escolha aleatória destas pessoas deve reproduzir todo as segmentações sociais apuradas pelo IBGE, como por exemplo: a proporção entre homem-mulher, a proporção correta de jovens, homens maduros e idosos. Reproduzir as faixas etárias dos eleitores. Níveis educacionais, analfabetos, ensino fundamental, ensino médio e ensino superior e assim por diante.
          
Caso consigamos construir com todo rigor esta amostragem, estamos credenciados a acertar, dentro da margem de erro o resultado da eleição. Note bem, o maior segredo do acerto está em tornar a coleta dos dados o mais aleatório possível, ou seja, o mais “espalhado” possível, para evitar “enviesamento” na coleta de dados, do tipo: “penetrar” sem querer em áreas de voto concentrado deste ou daquele candidato. Caso não haja este cuidado, aquele instituto é candidato a errar os resultados das eleições.
         
P: O que garante resultados de qualidade em uma pesquisa ?
          
R: O planejamento da pesquisa, a construção do questionário, evitando perguntas indutivas ao eleitor. Realização do pré-teste com até 5% dos entrevistados. O treinamento dos pesquisadores de campo. Coordenação atuante em atividade de campo. Rigor na busca de “espalhar” o máximo possível a coleta dos dados. Realizar uma checagem da coleta de dados, de forma rígida e representativa. Criticar os dados para corrigir possíveis enviesamentos. Nestas eleições detectamos e corrigimos enviesamentos em vários locais, anulamos as coletas e repetimos a pesquisa.
         
P: Desde as eleições para prefeito, há dois anos, seu instituto, bastante jovem, em relação aos demais, vem se destacando por conseguir se aproximar dos resultados das urnas e apontar tendências ainda no início do período eleitoral. Como isso tem sido possível? 
      
R: Não temos compromisso com tática de nenhum candidato. Temos compromisso com nossos achados científicos. Nestas eleições todos os institutos davam vantagem ao candidato Jatene e a Iveiga encontrava dados totalmente divergentes do Ibope, Sensus, Doxa, BMP e Perspectiva. Recebi pressões imensas. Fui acusado de “vendido”. Não entendi a lógica de meus algozes, afinal, se quisesse me vender, o endereço não seria a oposição. Este mesmo assédio moral sofri em 2010 quando apontei a vitória da oposição, representada pelo PSDB e Jatene, contra o PT e a ex governadora Ana Júlia. E digo mais, já recusei muita mala preta para mudar resultados de pesquisa.
         
P: Como o senhor avalia os resultados díspares nesta eleição? Os institutos não usam a mesma metodologia? Não deveriam chegar a resultados próximos? 
       
R: De fato, se os institutos usam a mesma metodologia deveriam chegar ao mesmo resultado. Mas tem fatores que podem alterar a perspectiva na aproximação dos resultados, como o momento da coleta dos dados ou sair da margem de erro prometida. Este erro é possível, na medida que qualquer pesquisa tem a probabilidade de erro total de até 5%. Ou seja, as pesquisas, metodologicamente corretas, caso repetidas 100 vezes, tendem a acertar 95% das vezes e errar 5% delas. Parece que todos os demais institutos caíram nesta margem de erro absoluto de 5%.
      
P: O senhor acredita que houve manipulação dos dados?
          
R: Não tenho elementos palpáveis para responder a esta pergunta.
         
P: O Ibope é um dos institutos mais antigos e mais conhecidos do País, mas no Pará tem cometido sucessivos erros de avaliação. O que pode explicar isso na sua opinião? 
           
R: A explicação mais plausível é que institutos nacionais como Ibope, Vox Populi, Sensus, não mandam seus técnicos para recrutar, treinar e coordenar as pesquisas de campo. Estes institutos nacionais terceirizam estas coletas de dados, e geralmente são institutos da região ou do estado que fazem este trabalho. Daí que, as elites políticas locais tem grande chance de buscar contaminar estes dados. 
             
P: É possível um instituto errar tanto?
         
R: Parece que sim, pelo menos tem sido assim no Pará, desde as eleições de 2004.
         
P: As pesquisas ainda conseguem influenciar o voto do eleitor?
              
R: Não creio. As pesquisas científicas ainda não chegaram a uma conclusão pacífica sobre esta questão. As pesquisas sempre retratam um momento específico da campanha, e sempre é um retrato retrospectivo, nunca prospectivo. Mas uma coisa parece certa, as pesquisas levantam ou rebaixam a moral das tropas de ruas dos principais contendores eleitorais, daí o desespero de sempre aparecer na frente nas pesquisas eleitorais.
             
P: Como esses erros recorrentes, o senhor não acha que a tendência é de que o peso das pesquisas sobre a decisão do eleitor diminua? 
          
R: Creio que sim. Acho que a tática central dos candidatos competitivos, mas que estão atrás nas pesquisas, é justamente esta, apresentar resultados divergentes com as pesquisas que lhe colocam atrás, justamente para levar o eleitor ao descrédito no entorno de todas as pesquisas em curso. As pesquisas na verdade devem ser tratadas com seriedade, porquê é o único instrumento que o eleitor possui para saber como os outros eleitores pensam em votar, para que sua escolha individual tenha maior peso no voto agregado.
          
P: No meio desse mar de pesquisas eleitorais, o eleitor fica meio perdido sem saber em quem confiar, o que o senhor recomenda? 
           
R: Maior rigor na legislação que organiza a realização de pesquisas eleitorais. Deveria ser criada uma auditoria profissional vinculado ao TRE para que todas as pesquisas, obrigatoriamente passassem pelo crivo científico especializado, e que fossem criadas penalidades “pesadas” para autores de fraudes em pesquisas eleitorais, para que os custos da fraude induzissem a classe política e os institutos a terem um comportamento republicano.
        
Fonte: Diário do Pará
            

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